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Ensaio sobre a saudade

Ensaio sobre a saudade

18 de Novembro de 2013

Uma crónica antagónica sobre a saudade que a convida a voltar, com saudade dela mesma.

Gostava de te dizer que sempre me esqueço do dia dos teus anos. Talvez até nunca tenhas nascido, não te vejo o pai, nem a mãe. Não te sei a idade. Faço-me de difícil ao dizer-te que gostava de te dizer que sempre me esqueço do dia dos teus anos. Desejava com isso que te sentisses incomodada, importunada, esquecida, mal disposta por me esquecer do dia dos teus anos. Ninguém gosta de se sentir esquecido no dia dos anos. Ninguém. Sejam eles quantos forem. Apenas as crianças, que vivem no melhor dos entretantos e, esses sim, têm desculpa por, efetivamente, não se chatearem se alguém se esquecer do seu dia de anos. E, por isso, aqui está a prova que, poderias, como qualquer outra, não gostar que me esquecesse. Aqui está a prova.

Mas não. Tu gostas. E, por isso, só não te digo porque sei que vais gostar. Assim, prefiro dizer-te que gostava de te dizer que me esqueço, não o dizendo na verdade.

Às vezes, acho-te a mais convencida de todas as minhas amigas mulheres quando, de repente, te apetece passear pelos elevadores panorâmicos que te elevam ao penúltimo piso dos edifícios que tu própria dizes que criaste e me convidas. Nunca aceito e aproveito agora para te informar que na verdade quero, mas tenho um medo infindável de alturas e por isso nunca vou. O que tu não sabes é que a ti, nunca digo aquilo que queres ouvir. Noutras vezes, deslumbrante, quando percebo que, nessas viagens nem tencionas ser vista. E isso é bonito e uma vez mais, aproveito para te explicar o porquê de, naquele dia, te ter pedido para desceres pelas escadas. Desejava que no teu regresso não te cruzasses contigo própria e que pudesses devolver-me na melhor das tuas facetas: a deslumbrante.

Não saberás, mas eu nunca acreditei em elevadores.

Confesso que acabei de tirar um curso intensivo de ‘como te gerir’ e lá dizia que eras a mais difícil de todas as gestões. Desconfiei e por isso decidi, no imediato, a inscrição; que eras mulher e que não usavas perfume. Disso eu já sabia: que eras mulher. Se és. E por isso gosto de ti. E mereces respeito. No cabeçalho a tua nacionalidade, portuguesa, numa espécie de não tradução que sempre me fascinou e intrigou e que, de forma etérea te descrevia como única – és livro de poesia na cabeceira de quase todos. Não requerias pré requisitos, nem ensino obrigatório, como se fosses o caminho mais fácil; que gostas de ouvir verdades em mentiras e mentiras em silêncios.

Sei que gostas de dominar e és cruel. Ris-te atrás das portas, porque o mundo quase todo acredita que és mesmo e só assim. Mas não, eu não acredito. Em plano contra picado, descobri que a melhor forma de te gerir, é fingir que acreditamos que tu és assim. Ultrapassar-te é olhar-te nos olhos e dizer-te ‘eu tenho-te em mim’; é falar- te alto e atribuir- te a importância que mereces e tens, uma vez mais. É dar- te o vício e tirar-te da ressaca. É fazer-te sentir a melhor do mundo, falsamente. É fazer- te o inverso do previsível.É assim que se lida contigo, Saudade.

Hoje escrevo-te, finalmente, para te dizer que não acho justo que te finjas silenciosa, mas que te compreendo; de pequenina, mas que te compreendo; de secundária e que te contentas com o quarto de arrumos para viver, mas que te compreendo; de discreta, mas que te compreendo. É tudo uma mentira que engana os que assim te pensam, numa visita agradável e bondosa; no vizinho simpático a quem acenas todas as manhãs em forma de bom dia; numa letra; nas tais verdades em mentiras que escrevem nos outdoors para venderem ideias.; na vida dos outros. Chega de viveres agarrada a todas as outras emoções, às recordações, às ilusões das recordações, ao truque das emoções, às confusões., não as deixando à própria identidade. E a outras ainda.

As tuas histórias são as melhores e mais divertidas do mundo: ora tristes, ora alegres, mas a ti te têm sempre: ora vestida de boa, ora de má, como me ensinaste – e isso eu agradeço – que me tivesses ensinado.

Gerir-te é perpetuar a tua morte, porque no âmago da consciência da tua resolução, tu chegas-me de novo com saudade de ti própria. Não me digas nada, nem me escrevas. Anseio a tua resposta só com o teu regresso, sendo que isto é a única coisa verdadeira que de mim vais ouvir e que não vais gostar gostando – que regresses Saudade.

Crónica por Tânia Arêdes Lima

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